Domingo, 17 de Agosto de 2008

As fraudes


Esse é o maior entrave das pesquisas psíquicas de todos os tempos. E teria sido esse motivo que levou a renomada Society for Psychical Research (SPR) a se negar a investigar profundamente os fenômenos de efeitos físicos, tal foi a quantidade de fraudes detectadas e a dificuldade em encontrar médiuns genuinos, sem terem nenhuma alegação de fraude feita por quem quer que seja no seu curriculum.

As fraudes dos fenômenos espíritas se tornaram muito populares com o advento dos médiuns profissionais. Muitos poderiam ser autênticos, mas como esse fenômeno não é voluntário (com raríssimas exceções) a sua falta implicava diretamente na falta de fregueses, e por consequência falta de dinheiro. Lembremos que o médium profissional é aquele que cobra por uma sessão, onde o cliente procura obter informações através dos espíritos.

Truques de mágicas foram muito empregados para convencer o público da veracidade dos fenômenos físicos. Daí veio a idéia de que somente mágicos poderiam dar pareceres respeitáveis sobre a autenticidade de um fenômeno físico. Ficou famoso, dentre todos, o brilhantes Harry Houdini, que desmistificou dezenas de falsos médiuns, tornando-se inclusive muito polêmico quanto a sua idoneidade, posto que adquiriu um ódio mortal a quem alegasse ter o dom de falar com os mortos. Até hoje permanece inconclusivo o caso Margery Crandon, que teve a participação do escapista americano.

A questão da fraude é complexa. Muitos médiuns utilizaram desse recurso para simular os fenômenos físicos que produziam genuinamente. O melhor exemplo é da médium italiana Eusápia Palladino. Como foi pesquisada por muitos cientistas, existe uma vasta bibliografia sobre suas capacidades paranormais. Ela já foi pega muitas vezes em ostensiva fraude, bastante infantil, tentando ludibriar os pesquisadores. Mas também foi testemunhada produzindo maravilhas da telecinesia, sem contato aparente e sem explicação por meio de truques. Dizem que as fraudes eram inconscientes. Quando em estado de transe, Eusápia seria capaz de perceber a intenção dos investigadores, desejosos de descobrir alguma fraude. Essa “intenção” poderia ser captada pela médium, que de forma autômata, semi-consciente, obedeceria aquele desejo, da mesma forma que ela captaria e obedeceria a vontade dos alegados espíritos que lhe comandariam as faculdades.

A história das fraudes nos dá o que pensar. Às vezes, o médium/paranormal frauda depois que seus poderes desapareceram de vez. Isso nos permite supor que a extensão dos poderes paranormais de um sensitivo é limitada por alguma coisa. Pra muita gente, há dificuldade em aceitar que um médium que produziu bastante não poderia mais deixar de receber mensagens “do além” depois de muitos anos. Isso aconteceu com a médium Eleonor Piper (que era profissional) e a médium Elisabeth D’Ésperance. Ambas, depois de uma certa idade, pararam de receber as mensagens paranormais. Em muitas culturas, não se admite que no fim da idade, o médium possa perder seus dons. E isso pode levar à mistificação.

Outra coisa que pode levar a fraude (até inconsciente) é a flutuação da capacidade paranormal. Em quase todos os textos que li, sobre pesquisas psíquicas com médiuns, o autor sempre destacava os maiores sucessos do agente paranormal associado com a frase: “nos seus melhores dias, a médium produzia...”, ou “Quando tudo estava favorável, obtivemos...”. Isso mostra que a flutuação da capacidade psíquica é bastante variável e imprevisível. Existe uma certa tendência em acreditar que médiuns mantém a mesma conectividade e a mesma passividade quando obtém as mais diversas mensagens “do outro lado”. Ao que parece, a coisa não é assim. Médiuns que transmitem dezenas de livros podem muito bem ter sido mais “autores” de certos volumes do que simples “intermediários”. Quem garante que não houve um pico de flutuabilidade da faculdade paranormal? Isso nos leva a uma constante análise crítica do que surge vindo do além. Nunca se sabe se tal ou tal livro foi mais ou menos afetado pelas idéias, convicções ou opiniões do alegado médium.

Muitos pensam que a fraude é motivada por dinheiro. Isso não é regra geral. Médiuns profissionais, que cobram pelos serviços se submeteram a diversas pesquisas e foi constatado que tinham sim a capacidade de produzir fenômenos autênticos. Novamente, temos Eusápia Palladino e Eleonor Piper nessa classe, fora outros. Como foi explicado mais acima, o dinheiro motivaria a fraude porque o “médium” precisa estar sempre produzindo para ganhar seu pão, e vemos que a faculdade é muito imprevisível. Numa flutuação onde houvesse uma baixa na atividade psíquica por meses, o médium deveria então procurar outra forma de ganhar a vida. Mas outras coisas podem induzir a fraude. A simples auto-realização em se considerar médium pode induzir alguém a permanecer com o rótulo de “médium”, mesmo quando não sinta mais nada. Não precisa envolver dinheiro, nem envolver um grande número de adeptos para induzir um paranormal à fraude. Basta a simples vontade de continuar a ser quem não é mais.

O histórico do paranormal também afeta a critica da possibilidade de fraude. Paranormais ou médiuns que são generosos, bons e humildes tendem a ter mais credibilidade diante do público, mesmo quando existem alegações de fraude. É uma idéia geral que alguém que seja tão bom e destacado pela sua nobreza não poderia fraudar. Novamente, temos aí algo que não é uma regra geral. Para uma pessoa honesta durante toda a vida, a fraude é realmente pouco provável de acontecer. Verdade. Mas isso não é uma garantia da total ausência da fraude. Lembremos, que a fraude também pode ser inconsciente, e não somente o fruto da vontade de enganar. Mas também não é impossível de acontecer isso. Mas essas pessoas tem um grupo de seguidores tão ferrenhos e cegos que a simples suposição da possibilidade de fraude é largamente descartada. Isso é uma coisa que não deveria acontecer.

Para exemplificar, vou citar o Sai Baba. Se você está visitando este blog, é porque se interessa por fenômenos físicos, e provavelmente se chegou até aqui é porque já passou por muitas páginas na internet e nos livros, e já leu alguma coisa sobre a paranormalidade de Sai Baba. Logo, não vou me estender quanto a ele. Existe um pequeno vídeo que mostra o que poderia ser interpretado como uma fraude vinda deste homem. O video do youtube mostra que Baba parece apenas cuspir um pouco de água no lenço, onde logo depois ele retira uma gema de ouro. O problema é que ele materializaria a gema de sua própria boca, mas no vídeo, parece que ela já estava no lenço. Ao passar quadro por quadro, sinceramente não consegui ver a gema no exato momento em que ela saia de sua boca (por favor, tente e veja por você mesmo). Agora, vamos analisar os fatos: os céticos de plantão vão dizer que isso é prova de fraude, e que Baba não é um autêntico paranormal, pois se ele fraudou aí também fraudou em tudo o que fez. Isso é por demais precipitado. Gosto sempre de dizer “a credulidade total é tão perniciosa quanto a incredulidade total”, porque estamos em dois extremos, quando na verdade o caminho da ponderação deveria ser o escolhido. No meu entendimento, o máximo que poderia-se dizer é que essa filmagem “sugeriria a possibilidade de fraude”. Sugerir a possibilidade de algo não é afirmar que esse algo acontece. É possível que ele tenha fraudade? Sim, é. Isso mostra que ele é uma fraude? Não necessariamente. Quando se sugere que há possibilidade de fraude, se quer dizer que o fenômeno pode ter sido reproduzido por meios fraudulentos, por truques. Mas a capacidade de se reproduzir um truque não é uma garantia que o fenômeno “só pode ter sido feito assim”. Se ele fraudou de verdade aí, também não quer dizer que ele fraudou sempre. O fenômeno genuíno pode ser intercalado com fenômenos fraudulentos, com truques. Motivos para produzir truques? Acredito que muitos. Não precisamos ter nenhuma causa óbvia para explicar um truque. Talvez algo de teor mais psicológico. Deixo aos leitores a liberdade de procurar alguém versado na Psicologia para explicar isso. Agora, basta dizer que existe a possibilidade de fraude por parte de Baba que virão protestos e mais protestos dizendo que isto é impossível, pelas qualidades morais e trabalhos sociais desenvolvidos por este homem. Calma! Levantar a possibilidade de fraude não é provar que a fraude existe. É só uma suposição. Agora, as qualidades morais do suposto paranormal também não são garantias 100% de que ele sempre é autêntico. O que os religiosos e crentes precisam entender é que sugerir a possibilidade de fraude não é dizer que esse alguém sempre foi um charlatão. Existem mais motivos que levam à mistificação, seja voluntária seja inconsciente, do que supomos.

Agora, vamos supor que o fenômeno no vídeo seja real. A gema de ouro pode ter sido materializada dentro do lenço, e Baba só encenou que ela sairia da boca. Se foi, então porque ele não mostrou ela direto do pano, sem fingir que ela saia da boca? Talvez porque isso levantaria mais suspeitas, dizendo que a gema já estava lá, colocada por alguém. Ou porque ele simplesmente não quis. Há muitos motivos para isso. Novamente, peço socorro a alguém que conheça Psicologia para dar uma explicação razoável.

Voltemos para as fraudes. Se um mágico consegue reproduzir um fenômeno paranormal, os céticos já vão dizer que todos os paranormais usam desse mesmo artifício, e portanto são charlatães. Vejamos bem: os mágicos reproduzem os fenômenos com truques porque as condições são favoráveis. Eles tem agilidade e conhecimento para desenvolver truques que imitam direitinho um fenômeno genuíno, porque eles tem todos os recursos e liberdade de ação para agir. Se um mágico for colocado nas mesmas condições de controle que um paranormal é, com certeza ele não fará nada. Mas muita gente teima a não enxergar isso e colocam os mágicos como os únicos capacitados para pesquisar a possibilidade de fraude, descartando simplesmente todo o controle que possa ter sido utilizado no paranormal. E assim, novamente se incorre em erro.

Outra coisa que favorece a fraude são as condições que o fenômeno exige para acontecer. Ou as próprias características do fenômeno, por assim dizer. A obscuridade necessária na maioria dos casos de efeitos físicos favorece grandemente a mistificação. Não obstante, ela é fundamental. Num texto de Donald West, ele publica uma foto obtida com câmera infravermelha num flagra duma sessão. Alegadamente, um “espírito materializado” estaria falando aos presentes através de uma corneta, levitada por ele mesmo. Quando a foto (a que ilustra o blog) foi tirada, ficou claro que quem segurava a corneta era a própria médium, fingindo o fenômeno. A foto está (ou melhor, estava) presente no site SurvivalAfterDeaht.org, que não existe mais.

Outra coisa que levanta a suspeita de fraude é a falta de conhecimento que se tem sobre as características do fenômeno. As horrendas faces materializadas por Eva C. nas experiências de Schrenck-Notzing são um bom exemplo disso. Após anos de pesquisa, o pesquisador alemão conclui que a médium é autêntica, mas consegue manipular a matéria materializada (no caso, o ectoplasma) e impregna ela com suas lembranças e idéias, descartando as hipóteses espíritas. Só que as imagens formadas por Eva C. são bidimensionais, como desenhos, e parecem amassadas e dobradas, como se fossem figuras de papel. Não tardou para que fosse considerada uma fraude descarada. Só que ao que parece, as condições de controle de Schrenck-Notzing foram bem rigorosas, o que impossibilitaria a médium de esconder tanto material sem ser percebida. Não seria muito lógico imaginar que um homem com tantos recursos forjaria uma fraude de forma tão grosseira e lançaria um livro sobre isso. Geralmente, ao se fraudar, o charlatão se nivela por cima, e não por baixo.

Nem vídeos, nem fotos. Somente se vierem acompanhados com a história e testemunhas é que se torna um bom indicativo da realidade de um fenômeno. Há alguns anos, tenho me dedicado a colecionar fotos paranormais. Esses anos de experiência me ensinaram que uma foto ou um vídeo, só por si, não garantem a autenticadade de nada. Apenas a história por trás dele pode dar maiores certezas se o fenômeno registrado foi real. Hoje em dia, com os softwares que existem, praticamente todos os fenômenos podem ser forjados, seja em foto ou em vídeo. Novamente, aí o testemunho humano é ainda a principal garantia da realidade.

Me alonguei demais nesta postagem. Sinceramente, o tema merece uma revisão bem maior do que a que eu posso dar. Espero que essas ponderações possam servir aos estudiosos para serem mais prudentes ao alegarem indubitavelmente se um médium/paranormal produz fenômenos fraudulentos ou genuínos.

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